BLOG DE TEXTOS E ROTEIROS DE RAQUEL ETGES

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domingo, 10 de julho de 2011

ROTEIRO DO CURTA METRAGEM: "URGÊNCIAS"

1. QUARTO DE KAREM – DIA
Karem entra porta adentro, joga as suas coisas na cama, senta-se e pega o celular, disca um número.
Enquanto espera a chamada, balança a perna nervosa.
Escuta-se a voz da caixa de recados do telemóvel.


KAREM
Ah não...caixa de mensagens...não mãe...atende este telefone

Karem espera a mensagem da caixa terminar.

KAREM
Mãe, porque seu telefone tá desligado? Ainda está no supermercado?
Que horas vem para casa? Me liga assim que ouvir este recado, por favor...

Karem desliga, e segue para o banheiro.

2. INT. SALA – DIA
Karem, chega a sala da casa, com outra roupa e de cabelo molhado. Encara seu
pai, Sérgio, que está sentado na secretária olhando para o computador, ele a olha
também, Karem tenta um sorriso tímido, mas o pai permanece sério.

SÉRGIO
Sente-se, precisamos conversar

Karem obedece. Seu pai levanta e anda de um lado a outro na sala. Fica em pé na
frente dela.

SÉRGIO
Porque? Porque você desistiu de estudar medicina?

Karem com o olhar para baixo, falando com muita calma e pausadamente.
Sérgio a encara.

KAREM
Porque eu quero escrever pai. Eu escrevo desde criança, este é meu sonho...

Sérgio volta a andar, pára em frente a sua secretária mexe em uns livros que ali
estão, apanha um livro qualquer.
Abre o livro, passa os olhos sobre ele, olha para Karem

SÉRGIO
Escrever não dá futuro.

Sérgio coloca o livro que está em sua mão sobre a mesa.

SÉRGIO
Medicina é que dá.

Karem olha fixamente para o pai com o olhar triste, volta a abaixar a cabeça,
esfrega as mãos uma na outra, sem olhar para seu pai.

KAREM
Eu não tenho vocação para a medicina.

Karem levanta os olhos, olhando novamente para o pai, que está parado próximo a
secretária.

SÉRGIO
E quer escrever como...

Sérgio, olha para a estante de livros e passa os olhos, pega um livro e olha para
a capa, mostra pra Karem, que vê o livro “Crime e Castigo” do Dostoiévski nas mãos do
pai.

SÉRGIO
Como estes livros aqui?

Karem solta um leve sorriso. E confirma com a cabeça.
Sérgio olha para o livro, respira fundo.

SÉRGIO
Isso é uma grande surpresa pra mim

KAREM
Se o senhor estivesse mais presente na minha vida saberia do que eu gosto.

Sérgio aperta o livro entre as mãos, larga-o em cima da mesa, se aproxima de
Karem, com a voz mais calma.

SÉRGIO
Eu não estava presente porque estava trabalhando. Para nunca faltar nada
pra você e pra sua mãe

Sérgio volta a andar pela sala, pára alguns segundos em frente a janela.
Karem respira fundo.

KAREM
Faltou uma coisa muito importante pai... A sua atenção e participação na minha vida

Sérgio vira-se e anda até o sofá, se senta, respira fundo, encosta a cabeça e fica
olhando para o teto.
Karem observa o pai por uns instantes, olha para o telemóvel, levanta-se, pega a
sua mala.

SÉRGIO
Queria saber mais sobre seu novo namorado, se é um bom rapaz, de boa família...

Karen já abrindo a porta da sala para sair, olha para o pai com um sorriso.

KAREN
Tá bom... Outro dia...

Sérgio levanta a cabeça e vai dizer mais alguma coisa, mas Karem saí pela porta.
Sérgio levanta-se e olha pela janela da sala, e neste momento SE OUVE um barulho
de moto.

3. INT. HOSPITAL – DIA
Sérgio em sua sala de descanso no hospital, toma alguns comprimidos e deita-se
em um sofá, e logo adormece.

4. EXT. PRAÇA - DIA
Karem e o namorado Daniel, tomam um gelado em uma praça da cidade.
Eles andam um pouco, e sentam-se em um banco.

KAREM
Hoje disse ao meu pai que não vou estudar medicina

Daniel olha pra ela, passa a mão em seu cabelo com carinho, Karem deita a
cabeça no ombro do namorado que a abraça.

DANIEL
Ele vai acabar a aceitar

Daniel observa uns miúdos a andar de skate.

DANIEL
Quer andar de skate?

Karem o olha, e ironiza.

KAREM
Não tenho mais idade pra isso, não é?

Daniel, levanta-se e pega na mão de Karem.

DANIEL
Então vem, vamos dar uma volta na minha moto.

Karem e Daniel seguem até a moto, e saem.

5. INT. HOSPITAL – DIA
Sérgio dormindo no sofá.
Alguém bate na porta, Sérgio abre os olhos mas não responde, a batida se torna
mais forte e uma enfermeira abre a porta e coloca o rosto pra dentro.

ENFERMEIRA
Doutor Sérgio! Temos uma emergência!!

Sérgio muito sonolento levanta do sofá e vai lavar o rosto. Olha no espelho e vê
tudo embasado, tenta concentrar a visão mas não consegue, ele joga muita água no rosto,
esfrega bem os olhos e pega várias toalhas para secar.
Mais uma batida na porta.

ENFERMEIRA (OFF)
Doutor, já está pronto?

Sérgio esfrega novamente os olhos e sai.

6. INT. CORREDOR DO HOSPITAL – NOITE
Ao abrir a porta da sala e sair para o corredor, Sérgio vê duas macas com corpos
cobertos por lençóis passando.

ENFERMEIRA
Não precisa mais doutor...

Sérgio olha sério pra enfermeira.

ENFERMEIRA
Dois jovens... Acidente de moto

Sérgio confirma com a cabeça, e vira-se já pra voltar para a sua sala, tira o
celular do bolso e vai fazer uma chamada, de repente, pára com a expressão
assustada, e corre atrás das macas.
Pára bruscamente os enfermeiros que empurram as macas, levanta o lençol e vê o
rosto de uma das vítimas.

7. INT. CARRO – NOITE
Sérgio dirige, abatido, olhos vermelhos e cansados.
Olha com atenção para algum lugar que ele passa e pára o carro.

8. EXT. RUA – NOITE
Sérgio desce do seu carro, e entra em uma loja.

9. INT. SALA – NOITE
Sérgio abre a porta do seu apartamento. Deixa as chaves e mala em uma poltrona,
e senta-se no sofá, respira fundo e olha para o lado, Karem está sentada próxima a ele
com o computador no colo, ele tira do casaco um pacote, a filha pega, abre e vê um livro, sorri,
e o pai sorri de volta.

desenvolvida no módulo de Curtas Metragens

CURTA METRAGEM:

Curta: “Urgências”

Storyline:
Pai médico, que trabalha no pronto socorro de um hospital, tem de resolver uma
questão urgente com sua única filha

Personagens principais:
Pai: Sérgio
Filha: Karen

Sinopse:

Sérgio e Karen na sala de casa estão a ter uma conversa, a filha aparentemente
triste tenta não responder seu pai, Sérgio muito nervoso fala que não entende porque ela
desistiu de estudar medicina. Karen tenta explicar ao pai com muita calma que não tem
vocação para a medicina, que não quer dedicar sua vida a isto, ela quer escrever, sempre
gostou de escrever, Sérgio não quer aceitar, diz que tudo que ela tem foi por causa do
trabalho dele, do seu esforço, mas Karen diz que o pai sempre esteve ausente, que a
mãe é que sabe da vida dela, que o pai faltou em vários momentos, como em alguns
aniversários, ele diz que estava trabalhando para nada faltar a família, Karen diz que faltou
uma coisa muito importante que era a atenção e participação dele em sua vida.
Sérgio se cala por alguns instantes, Karen levanta-se para sair, o pai diz que quer
saber mais sobre o novo namorado dela, ele quer saber se o rapaz é de boa família, se é
uma pessoa do bem, Karen responde que outro dia ele conhece.
Sérgio olha pela janela da sala, e neste momento ouve-se um barulho de moto.
No plantão do hospital, Sérgio toma uns comprimidos, e deita-se em um sofá,
adormece. Passa algum tempo.
Uma enfermeira bate a porta, ela entra e chama pelo médico, diz que tem uma
emergência, ele acorda bem zonzo, levanta-se e vai lavar o rosto, ele se olha no espelho
e tenta se concentrar mas sua visão está embaçada, Sérgio joga água na cara pra tentar
ficar bem pra ir atender a emergência, mas demora para sair da sala. Ouve-se pela porta
a enfermeira chamando de novo, pedindo ao médico que se apresse. Mas Sérgio ainda
tem a visão um pouco embasada.
Ao sair da sala, passam por ele duas macas com corpos cobertos por lençóis, a
enfermeira diz a Sérgio que já não é preciso ir atender as vítimas, os dois jovens
morreram de acidente de moto.
Sérgio faz um sinal de positivo com a cabeça e já volta para a sua sala de
descanso, enquanto caminha de volta, tem um estalo, se assusta e dá meia volta, corre
em direção das macas com os corpos dos jovens, com um desespero nos olhos.
Ele pára bruscamente os enfermeiros que carregam as macas, e se aproxima,
levanta o lençol e vê o rosto de uma das vítimas.
Sérgio abre a porta de seu apartamento com um ar bem cansado e abatido, ele
entra e logo sorri, sentada no sofá da sala com o portátil no colo, Karen sorri de volta para
o pai.

sábado, 9 de julho de 2011

DIA DE EXPEDIANTE

CENA DIALOGADA COMO EXERCÍCIO PARA O MÓDULO DE ESCRITA PARA LONGAS METRAGENS:

DIA DE EXPEDIENTE


INT. ESCRITÓRIO – DIA

Uma sala grande de um banco, várias mesas com computadores
e pessoas trabalhando, muitos telefones tocando, e muito
movimento.
RAFAELA em sua mesa de trabalho concentrada em frente ao
computador.
ANA sua colega de trabalho se aproxima rápido.
Rafaela levanta só os olhos para olhar para Ana.

ANA: O novo chefe já ta aí.

Rafaela pára o que está fazendo para entender melhor.

RAFAELA:
Qual novo chefe?

ANA

Como qual Rafaela??

RAFAELA
Ah! O novo gerente, já chegou? E
você viu ele?

Ana senta na mesa de Rafaela, que afasta uns papéis para a colega não amassa-los.

ANA
Não o vi ainda, mas tá todo mundo
aí comentando... já deve tá lá na
super sala só dele, com uma
cadeira confortável, mesa
espaçosa, café, secretária...

Rafaela, suspira na cadeira.

RAFAELA

E nós aqui, uma mesa colada na
outra, barulho o tempo todo,
telefone tocando sem parar...

Ana se inclina um pouco para falar mais baixo.

ANA
Sim...e nós é que trabalhos de
verdade...

Ana é interrompida pelo telefone de Rafaela que TOCA, mas ela não atende.
Ana fica esperando e Rafaela fica olhando pro telefone TOCAR.

ANA
Não vai atender?

Rafaela faz um sinal de "espera aí" para Ana.
O telefone pára de TOCAR.

RAFAELA

Pronto parou!

Rafaela vira-se para continuar a conversa e outro colega
delas, ANTÔNIO se aproxima.

ANTÔNIO
Então...vocês aqui estão falando
do novo chefe também?

Ana sorrindo.

ANA
E tem outro assunto neste marasmo
que anda este banco?

Rafaela gira na sua cadeira.

RAFAELA

(olhando para o nada)
Eu queria um dia ser gerente...

ANTÔNIO
Você seria uma boa chefe Rafaela

ANA
Claro, todo mundo queria ser
chefe, tem o melhor salário e não
faz nada...

ANTÔNIO
Ah, também não é assim, os chefes
trabalham

ANA
Trabalham onde Antônio?

O telefone de Rafaela TOCA de novo.

RAFAELA
Mas que merda...pois não vou
atender denovo...

ANA
Não atende mesmo...deixa
tocar...a gente rala o dia todo
aqui neste banco pra ganharmos a
miséria no fim do mês...e o
bonitão que chegou agora vai
ganhar dez vezes mais que a gente, pra ficar o dia todo na sua sala
dormindo ou atualizando o
faceboock...

ANTÔNIO
Ou comendo a secretária...

RAFAELA
A dona Lurdes?? Ela tem cara que
não faz sexo desde mil novecentos
e sessenta...

Antônio sorri.
Ana permanece série.

ANTÔNIO
Quando disse comendo a secretária
foi um clichê, que nem nos filmes
que os chefes tem caso com a
secretária, entende?

Rafaela faz um sinal positivo com a cabeça sorrindo, e vai
dizer alguma coisa. Ana interrompe Rafaela.

ANA
Sim, sim Antônio entendemos, e
com a sua piadinha estragou meu
raciocínio, eu tava dizendo
que...

O telefone TOCA de novo.

ANA
Mas que porra este telefone.

Ana que atende.

ANA
(ao telefone)
Alô! Não, não podemos falar,
ligue mais tarde.

Ana desliga.
Rafaela fica olhando para ela.

RAFAELA
Porque fez isso?

ANA
Isso o que?


RAFAELA

Atendeu o telefone da minha mesa?
Depois se era um cliente
importante e ele reclamar quem se
fode sou eu...

ANA
Desculpa, mas eu tava no meio de
um assunto que gostaria de
concluir

Rafaela gira sua cadeira e fica de frente ao seu computador e volta ao trabalho.
Antônio vai saindo.

ANA
Antônio, espera aí, vamos
terminar a conversa...

Antônio pára uns instantes e volta para falar bem perto de Ana.

ANTÔNIO

Vou é para o meu lugar, porque
não quero falar mal do novo
chefe, nem ouvir...

Ana calada, sai de cima da mesa de Rafaela.
Levanta os ombros questionando Antônio.

ANA
E porque? Vai puxar o saquinho do
chefe novo é?

Antônio fala baixo para Ana.

ANTÔNIO
(baixo)
Ele é meu cunhado...

Antônio saí de perto de Ana, caminha em direção a sua mesa.
Ana vira-se para Rafaela.

ANA

Ouviu isso?

Rafaela que está concentrada em frente ao computador fazsinal positivo com a cabeça.

ANA

E não fica preocupada? Falamos
mal do novo chefe...
Rafaela sem olhar para Ana.

RAFAELA
Falamos não, você que falou...


Ana suspira e saí andando pelo escritório reclamando.


ANA

Só queria abrir os olhos dos meus
colegas que nós que sustentamos
este banco... nós que trabalhamos
de verdade...não falei mal do
chefe e sim dos chefes, que só
sabem mandar...

Ela passa pela mesa de Antônio que olha para ela sorrindo,
mas Ana não corresponde o sorriso. E segue falando

O Primeiro

de primeiro, vem um primeiro, que não sei qual será este primeiro, mas pensarei em um começo, então começo de onde se começa a escrever, ou melhor, começo por falar do meio que usamos para escrever, e não é o computador, e sim as mãos.

"As mãos contam o tempo, que contam uma história. A história da dona destas mãos,
o que se passou todos os anos?
Que pessoas pegou, que outras mãos apertou e que rostos afagou?
Se perguntar as mãos todas as histórias que viu, muitas ela irá contar.
Como nos lugares que entrou, os cigarros e copos que já segurou, todos os movimentos que se conteve, todos os movimentos que conteve um corpo todo, de alguma angústia guardada e que não podia ser exposta por aí"